Golpes com cripto na Copa do Mundo 2026: ingressos falsos e carteiras drenadas
Golpistas usam a Copa do Mundo FIFA 2026 para roubar cripto de brasileiros com ingressos falsos e páginas de 'airdrop' que drenam carteiras.
A Copa do Mundo FIFA 2026 virou isca para uma onda de golpes com criptomoedas, e o Brasil está no meio dela — tanto pela seleção em campo quanto pela posição do país como 5º maior mercado cripto do mundo. Pesquisadores de segurança já mapearam sites de ingressos falsos que só aceitam pagamento em USDT ou USDC, além de páginas de "airdrop" que, ao conectar a carteira, disparam um script que transfere todos os fundos para o golpista em segundos. Nenhuma dessas fraudes depende de uma falha técnica na blockchain — todas dependem de você aprovar algo que não devia.
Por que a Copa virou o evento perfeito para golpistas
Grandes eventos globais não geram fraudes novas, eles reciclam fraudes antigas com uma marca nova. É exatamente o padrão que a Forcepoint X-Labs descreveu: golpistas não constroem infraestrutura do zero para a Copa 2026, eles adaptam kits de phishing, wallet drainers e templates de fraude que já usavam, trocam a logo e o texto para "Copa do Mundo" e distribuem em massa.
A TRM Labs, empresa de inteligência em blockchain, já rastreia múltiplas frentes de golpe ligadas ao torneio: sites de ingressos falsos, esquemas de apostas em "jogo combinado", kits de phishing prontos para revenda e promoções de meme coins com a marca do evento. Uma das operações de ticket falso rastreadas pela TRM já recebeu cerca de US$ 1.562 em uma única carteira Polygon, a maior parte em um único dia. Os valores individuais ainda são baixos porque a infraestrutura muda rápido — os golpistas trocam de endereço antes que qualquer rastreamento consiga fechar o cerco.
O mecanismo mais comum, identificado por empresas de segurança e replicado em reportagens brasileiras, segue um roteiro simples. Um grupo identificado como TA2725 criou sites e perfis em redes sociais que copiam a identidade visual da FIFA, oferecendo ingressos abaixo do preço de mercado — geralmente para jogos com alta procura, onde a escassez real de entradas torna a oferta "boa demais" mais crível.
Na hora de pagar, o site aceita exclusivamente criptoativos: USDT ou USDC, movimentados por redes como Tron ou Solana, sem qualquer opção de cartão ou PIX. É esse detalhe — pagamento exclusivo em stablecoin, sem alternativa em moeda local — que deveria acender o alerta antes de qualquer outro. Depois da "compra", o site pede a frase de recuperação da carteira para supostamente "validar" o ingresso ou liberar um NFT de acesso. Quem digita a seed phrase entrega o controle total da carteira, e os golpistas esvaziam os fundos para endereços que trocam a cada poucas horas.
Wallet drainers: o golpe do "airdrop" e do "token farming"
Existe uma segunda frente que não depende de você digitar a seed phrase — só de você clicar em "conectar carteira". A Forcepoint X-Labs documentou uma campanha que começa com um e-mail do domínio web-stake[.]com, se passando pela Stake.com, plataforma legítima de apostas com cripto, convidando a vítima para um evento de "Token Farming" ligado à Copa 2026.
O link leva a uma página que imita um protocolo DeFi real. Ao conectar a carteira, a vítima assina, sem perceber o alcance real do que está aprovando, uma permissão que dá ao contrato malicioso acesso para movimentar os tokens da carteira. A partir da assinatura, a transferência é executada automaticamente e não pode ser revertida — não existe MED nem estorno para uma aprovação on-chain assinada voluntariamente, mesmo que enganada. Esse tipo de "approval" malicioso é o mesmo mecanismo usado em golpes de NFT grátis e meme coin promocional o ano todo; a Copa só deu um pretexto novo e sazonal para reciclar o golpe.
Apostas de "jogo combinado" e meme coins: as outras frentes que a TRM Labs rastreia
Além dos ingressos falsos e dos wallet drainers, a TRM Labs documentou pelo menos duas outras variações ativas durante o torneio. A primeira é o esquema de "jogo combinado": um site cobra uma taxa antecipada, paga em cripto, prometendo o resultado garantido de uma partida. Uma das carteiras Bitcoin ligadas a esse tipo de golpe recebeu pequenos valores entre janeiro e maio de 2026, movidos depois para uma conta custodial — um padrão clássico de fraude de apostas, apenas reembalado com a marca da Copa.
A segunda é a promoção de meme coins com o nome do torneio, de seleções ou de jogadores, vendidas como "o próximo token oficial da Copa" em grupos de redes sociais. Não existe token oficial da FIFA para a Copa 2026 negociado dessa forma — qualquer ativo vendido sob essa promessa é, por definição, uma tentativa de aproveitar o hype para inflar o preço antes de um rug pull. A TRM também alerta que kits de phishing prontos para revenda circulam entre grupos criminosos, o que barateia o custo de lançar uma nova fraude e explica por que tantas variações aparecem ao mesmo tempo.
Como proteger sua carteira até o fim do torneio
A defesa contra todos esses vetores é a mesma: tratar qualquer pedido de seed phrase ou qualquer conexão de carteira fora de um app oficial como hostil por padrão.
- Compre ingressos exclusivamente pelos canais oficiais da FIFA — nunca por link de rede social, grupo de WhatsApp ou site que só aceita cripto como forma de pagamento.
- Sua seed phrase nunca é solicitada por nenhum site, suporte ou "validação" de ingresso ou NFT — quem pede está roubando a carteira, sem exceção.
- Antes de conectar a carteira a qualquer página de "airdrop" ou "farming" ligada à Copa, confira o domínio com cuidado (web-stake[.]com não é Stake.com) e desconfie de qualquer evento promocional urgente.
- Revise periodicamente as aprovações (approvals) já concedidas na sua carteira e revogue as que não reconhece ou não usa mais — é a única forma de fechar a porta que um drainer já abriu no passado.
- Antes de interagir com um token ou contrato promovido como parte de uma promoção da Copa, rode uma verificação com o Token Safety Checker para identificar honeypots, taxa oculta e outros sinais de rug pull.
- Para confirmar que um endereço ou domínio ENS pertence mesmo a quem diz pertencer antes de enviar qualquer valor, use o ENS Checker.
Nenhuma dessas práticas é exclusiva de período de Copa — são os mesmos hábitos que reduzem o risco de qualquer golpe de phishing o ano todo, como já vale para a triangulação de PIX em cripto que circula no Brasil. A diferença agora é o pretexto: um evento com bilhões de espectadores dá aos golpistas um gatilho emocional — a urgência de garantir um ingresso — que costuma desligar o senso crítico que normalmente protegeria a carteira.