US$ 14,68 bi em cripto: o brasileiro trocou bitcoin por stablecoin
Compras de cripto no Brasil sobem 135% em 2026, segundo o Banco Central, com stablecoins respondendo por até 95% da demanda registrada.
O Banco Central divulgou, em 28 de julho, um número que resume a virada do mercado cripto brasileiro em 2026: brasileiros compraram US$ 14,68 bilhões em criptoativos no primeiro semestre, alta de 135% sobre os US$ 6,24 bilhões do mesmo período de 2025. O dado vem da série 29644 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do BC, que acompanha ativos com emissor identificado. A parte que mais importa não é o tamanho do salto, e sim a composição dele: entre 90% e 95% dessa demanda é stablecoin, não bitcoin.
O que os números do BC mostram
Só em junho, o volume líquido de compras somou US$ 2,54 bilhões, 72,3% acima dos US$ 1,48 bilhão de junho de 2025. Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do BC, descreveu o momento como um mercado que "saiu da fase inicial, consolidou novas aplicações e ampliou sua participação em transações financeiras" — uma forma técnica de dizer que cripto deixou de ser aposta pontual e virou hábito recorrente para uma fatia relevante da população.
O crescimento de 135% em um ano não é hype de ciclo de alta; é um câmbio de real desvalorizado, Selic em queda e stablecoin cada vez mais fácil de comprar via PIX. Esse pano de fundo já vinha aparecendo neste blog na semana passada, quando o Fed segurando juros e o BC cortando a Selic pressionaram o real para a faixa de R$ 5,10-5,20 — exatamente o cenário que empurra parte da poupança para dólar digital.
Por que stablecoin, e não bitcoin, virou o motor da alta
A leitura antiga era simples: brasileiro compra cripto para especular com preço. Os números do BC contam outra história. Se stablecoin domina de 90% a 95% da demanda identificada, o uso predominante não é apostar em valorização — é guardar valor em dólar, mandar dinheiro para fora ou fechar uma operação sem depender de câmbio bancário tradicional.
Essa migração de bitcoin para stablecoin como porta de entrada tem uma consequência prática direta: o rastro fiscal e regulatório dessas operações interessa mais ao Banco Central e à Receita Federal do que o preço do bitcoin em si. Já é por isso que o DeCripto, em vigor desde julho, e a resolução que transforma exchanges em instituições supervisionadas a partir de 2027 miram justamente esse fluxo de stablecoin — não o trader de bitcoin de fim de semana. Para quem quer entender esse lado regulatório em detalhe, vale revisitar Banco Central transforma exchanges de cripto em instituição financeira.
RWA cresce junto, mas ainda é a fração menor
O mesmo levantamento do BC mostra R$ 4,84 bilhões em emissões de ativos tokenizados (RWA) no período, alta de 122%, com R$ 3 bilhões captados de fato — 87,5% a mais que no ano anterior. É um crescimento acelerado, mas em escala ainda pequena perto dos US$ 14,68 bilhões em cripto tradicional. RWA está crescendo mais rápido em percentual porque partiu de uma base menor, não porque já compete em volume com stablecoin. Essa é uma medição diferente da que o RWA Monitor divulgou no mês passado — vale conferir Tokenização de RWA no Brasil para o contexto de CVM e risco de crédito por trás de cada token.
O que observar até 2027
Três pontos concentram o que vem a seguir:
- Supervisão prudencial das exchanges — a partir de janeiro de 2027, prestadoras de serviços de ativos virtuais viram instituições Tipo 3, com capital mínimo e regras de Basileia. Isso tende a formalizar ainda mais o fluxo de stablecoin que hoje já domina a demanda.
- DeCripto em regime de cruzeiro — o primeiro envio mensal, referente a julho, vence no último dia útil de agosto. Quanto mais essa base de dados amadurece, mais os próximos relatórios do BC deixam de ser estimativa e passam a ser contagem quase completa.
- Diferencial de juros Brasil-EUA — enquanto durar a combinação de Selic em queda e Fed sem pressa para cortar, a procura por stablecoin como proteção cambial tende a se manter, com ou sem novo recorde trimestral.
Para quem já usa stablecoin como parte da reserva em dólar, o dado do BC não muda a mecânica da operação — só confirma que virou comportamento de mercado, não exceção. Quem está considerando esse caminho pela primeira vez ganha um ponto de partida mais confiável: USDT segue disponível na Zest Exchange, com rede e custo mostrados antes da confirmação, o que evita boa parte do erro que normalmente encarece essa conversão.